quarta-feira, 12 de março de 2008

Anedota 2 (Comunistas/Capitalistas)

Anedota de carácter discriminatório (Comunistas/Capitalistas)
“Num encontro entre Brejnev e Nixon, nos Estados Unidos, o presidente dos EUA mostra a Brejnev a sua coleção de automóveis. Uma enorme coleção com automóveis de todas as marcas famosas desde os mais antigos ate aos modernos. Brejnev fica impressionado.
- E o Sr. presidente, colecciona alguma coisa ? - pergunta-lhe Nixon.
- Ah, nada de especial, colecciono anedotas
- Anedotas ?
- Sim, anedotas que as pessoas contam sobre mim.
- Oh, interessante ! E quantas é que já coleccionou ?
- Dois campos de concentração.”

A crítica aqui representada incide sobre as ideologias políticas extremistas dos americanos (Capitalistas) e do povo russo (por serem comunistas e pelos ataques feitos à população, tendo em conta as opiniões contra o regime). Como tal, Nixon insurge-se aqui como coleccionador e dono de uma enorme colecção de automóveis, e Brejnev como coleccionador de anedotas (críticas a si e à Rússia do seu tempo). E tendo em conta a repressão praticada pelos dirigentes Russos, o resultado das críticas feitas ao regime é o aprisionamento e morte nos campos de concentração, dos autores ou dizentes das anedotas em questão.

Anedota 1 (Nacionalidades)

Anedota de carácter discriminatório (Nacionalidades) - Veja-a -> aqui <-
O humor é, muitas vezes, o modo mais fácil de criticar alguém/algum grupo. Desta forma, é pois utilizado para expressar estereótipos e preconceitos. A ironia, a sátira, camuflam q.b. a áspera realidade tão minada de ideias pré-formadas de uma forma que acaba por ser socialmente aceite de forma díspar de qualquer outro tipo de crítica.
Na anedota aqui referida, os alvos de crítica são os seguintes: os ingleses (que “não se apresentam se não forem cordialmente apresentados”), os espanhóis (que, sendo um povo latino, não consegue conter as emoções e luta até ao limite), os franceses (“promíscuos”), e os russos (rotulados como comunistas – aqui a crítica incide mais sobre o comunismo que propriamente sobre o povo russo, no entanto, estando eles conotados com esta ideologia política, acaba por também lhes ser uma crítica).
Discordo, portanto, com o autor deste documento, que indica ser uma anedota crítica cujo grupo alvo são as mulheres. Apesar de de facto surgir uma mulher em cada grupo criticado, parece-me que são, assim como os homens, simplesmente um elemento da população em crítica e não necessariamente uma crítica ao sexo feminino.

Comentário a artigo de Paula Guerra

1. "Explica como é que [...] um estereótipo é fruto da imaginação e uma definição do mundo anterior à observação. Deves fazer pelo menos uma citação do artigo e, se quiseres, acompanha o teu texto com exemplos concretos. "

1. Dificilmente nos conhecemos em totalidade. Isto porque a nossa visão sobre nós próprios é muitas vezes diferente da visão sobre nós próprios de outros. E sendo esse processo interpretativo relacionado connosco, pertence-nos. E muitas vezes, não sabemos exactamente quem somos aos olhos de outros. Se a ideia que esses outros têm de nós são verdadeiras, pouco interessa, pois essa ideia prevalece neles e é através dela que somos por eles avaliados. Estereotipamos, da mesma maneira que somos estereotipados. Seja pela cor do cabelo ou pela nacionalidade, estamos inseridos num grupo - que pode ser ou não determinado por nós próprios - e isso insere-nos numa realidade criada por todos.
Segundo Marcos Pereira, o estereótipo pode ser definido por uma série de factores - "factores físicos, biológicos, individuais, grupais e contextuais" . Apesar da simplificação que está intríseca ao "estereotipar" e da ausência, muitas vezes, de características que permitam englobar um certo número de pessoas num mesmo grupo, é certo que o estereótipo tem a sua razão de ser (como disse R Rojao, "Por exemplo se vivesse na Alemanha se calhar já não achava as suecas belas e loiras, já que na Alemanha há bastantes loiras. Mas nunca saberei , porque o meu estereótipo das suecas, já está definido de acordo com a cultura e sociedade em que estou inserido" - ele associa raparigas loiras a alemãs porque, de facto, há muitas loiras na Alemanha). De notar que as pessoas não aceitam simplesmente um estereótipo ou um preconceito só porque "o outro disse". Podem avaliar a situação a aceitá-la ou não (podendo depender, aí assim, da pressão do grupo ou outros).
Como disse Marcos Pereira, "Isso em razão de estereótipos não serem inatos e serem modificados com o tempo, pois as informações não são absorvidas, mas interpretadas, avaliadas, elaboradas, organizadas e armazenadas, em um processo influenciado pelas variáveis pessoais. ". Não nos sendo o estereótipo inato mas sim apreendido, podemos concordar com ele ou não, por mais que alguns factores possam influenciar a nossa aceitação desse mesmo estereótipo. Esta aceitação pode estar interligada com uma série de factores, mas o motivo mais plausível é a estranheza, a diversidade, a complexidade que o mundo nos oferece. Sendo nós um pequeno ser inserido neste tão grande mundo, temos de encontrar maneiras de o categorizar, dividir, e então entendê-lo. Para estarmos então preparados a este choque que é a vida social, tendemos a "imaginar e definir o mundo" (Paula Guerra) - através dos estereótipos e da simplificação que nos oferecem - para em seguida o "observar", sendo essa observação não livre, mas presa aos cânones de um pré-julgamento. Metaforicamente, podemos afirmar que vemos pois o mundo através de uns óculos com uma graduação medida em número de estereótipos. Não nos apercebemos como distorcem a realidade do mundo em frente aos nossos olhos, pois tudo fica mais claro e perceptível. Pensamos ver o mundo exactamente como ele é - em liberdade de espirito - mas na verdade, vamo-nos enganando aos poucos.

Artigo de Paula Guerra

Psicologia social dos estereótipos


Paula Bierrenbach de Castro Guerra*, 1


Pereira, M. E. (2002). Psicologia social dos estereótipos. São Paulo, SP: EPU.

Marcos Emanoel Pereira leciona na Universidade Federal da Bahia as disciplinas psicologia social e psicologia social dos estereótipos, dedicando-se também ao estudo dos estereótipos étnicos. Seu livro, Psicologia social dos estereótipos, compreende sete capítulos e uma conclusão ao final.

A introdução corresponde ao primeiro capítulo e apresenta o enfoque de “quem são os outros”, pela perspectiva da análise individual. O outro poderia ser qualquer um, inclusive o próprio observador em outra situação, e geralmente a análise do outro é feita por concepções errôneas, conferindo uma avaliação negativa. Várias anedotas étnicas são analisadas em termos sociológicos, delineando-se limites geográficos, sociais e morais de nações ou grupos, que refletem valores e normas. O autor mostra que há uma tendência siste-mática na autovalorização e na valorização do próprio grupo, concomitante a uma desvalorização do outro, mas não há consenso de como ou por que isso ocorre.

O enfoque da instalação do estereótipo observa que pessoas, inicialmente, imaginam e definem o mundo e em seguida o observam. A interpretação estaria fundamentalmente associada à cultura, que determinaria de forma estereotipada a noção interna sobre o mundo externo. Assim, já haveria uma opinião formada, de acordo com os códigos da cultura, para se analisar o mundo antes mesmo de observá-lo. O mundo estaria ordenado por códigos, passados de geração a geração, favorecendo a estereotipia, que por função defenderia as tradições culturais e posições sociais.

O segundo capítulo apresenta um posiciona-mento etimológico e histórico dos termos estereótipo e estereotipia, centrando-se nas ciências sociais, que usam para referências às imagens generalizadas sobre grupos ou membros destes. Outra questão é a preocupação desta área em esclarecer os conteúdos dos estereótipos e suas influências à percepção social, julgamentos e comportamentos. Vários métodos de investigação dos estereótipos são descritos, porém afirma-se haver um predomínio da metodologia experimental. Questões conceituais sobre preconceito e discriminação, partindo-se da existência do estereótipo, e suas inter-relações são abordadas no terceiro capítulo. A idéia defendida é que tanto se alimentam discriminação e preconceito utilizando-se fatores sociais, afetivos, e cognitivos, quanto se diminuem com métodos, como a hipótese do contato e a redução da ignorância.

Desde a década de 90, teorias sobre estereótipos têm considerado o individual ou o contextual, enfatizando ou não o conflito, delineando quatro perspectivas. A primeira observa a teoria individualista e o conflito, em geral teorias psicanalíticas, centradas em noções de repressão, projeção e catarse. Essa micro-análise observa que crenças surgem com o tempo e devido a experiências repetidas. A segunda concepção avalia o contexto e não o conflito. São teorias socio-culturais, que enfatizam a aprendizagem social, especialmente evolução e meios de transmissão dos estereótipos. A observação e repetição de comporta-mentos seria favorável à associação de um papel, um critério e por fim um diagnóstico social. Essa macro-análise enfoca que crenças são compartilhadas, sendo a sociedade o depósito da informação, além de admitir a importante influência da mídia, contribuinte para uma “indústria cultural”. A teoria da identidade social corresponde à terceira concepção, reunindo a dimensão contextual e o conflito. Sugere que ao se perceber membro de um grupo, o indivíduo sente-se com as características daquele grupo, compartilhando percepções e comportamentos. A última abordagem refere-se à teoria da cognição social, que observa o individual e não o conflito. Essa visão considera estereótipos estruturas cognitivas, tem sido preponderante nos últimos vinte anos e estuda o processamento da informação, enfatizando os mediadores cognitivos. Esses processos favoreceriam a similaridade entre membros de um grupo. Seriam usados para racionalizar as próprias atitudes e dos demais e forneceriam prescrições, por definirem concepções e comportamentos em relação a uma situação. O autor descreve também mecanismos envolvidos na formação dos estereótipos, citando memória, atenção, codificação das informações, afetos, auto-imagem e processos automáticos controlados. Esses mecanismos seriam agentes na categorização do outro, e por seguirem critérios diversos, tornam distinta a observação de cada um.

O penúltimo capítulo, de forma breve, aborda o quanto o estereótipo se aproxima da realidade, e sugere que a dificuldade para essa avaliação seja a ausência de critérios de analogia. Isso em razão de estereótipos não serem inatos e serem modificados com o tempo, pois as informações não são absorvidas, mas interpretadas, avaliadas, elaboradas, organizadas e arma-zenadas, em um processo influenciado pelas variáveis pessoais. O último capítulo retoma pontos já observados anteriormente, relacionando-os à evolução da criança, como a formação, o desenvolvimento e as mudanças dos estereótipos. As relações fundamentalmente moldariam e definiriam a maneira como se percebe e se avalia o outro. Todos os processos envolvidos, como cognitivos, afetivos, motivacionais, sociais e culturais, estariam correlacionados aos contatos e experiências com as pessoas e agentes de socialização. A família teria uma forte influência na formação dos estereótipos.

O modelo de influências de Bar-Tal para a formação e transmissão de estereótipos é apresentado. Este compreende background, grupos transmissores e variáveis pessoais mediadoras. O background sendo formado por relações entre grupos, condições políticas, sociais e econômicas, características e comportamentos dos outros. Os transmissores seriam compostos por mecanismos sociais, políticos, econômicos e educacionais, a influência dos familiares, os contatos diretos entre os grupos. As variáveis pessoais mediadoras são constituídas pelas atitudes e valores pessoais, personalidade, motivações e estilos cognitivos dos percebedores. Esse modelo tem sido eficiente para explicar a formação dos conteúdos específicos dos estereótipos, mas não para predizê-los efetivamente.

A argumentação conclusiva aborda a multicau-salidade do fenômeno estereótipo, admitindo-se a ação conjunta dos fatores físicos, biológicos, individuais, grupais e contextuais envolvidos no processo de estereotipização. Acrescenta que a investigação dos estereótipos, embora tenha avançado, nas últimas três décadas, ainda é rudimentar. E sugere que, pela falta de unificação de idéias, proceda-se a identificação, circunscrição e o estabelecimento de limites explicativos para os fatores envolvidos. A bibliografia de sustentação dos capítulos é ampla, o que possibilita a continuidade do estudo.